Conciliar trabalho e saúde mental é um dos maiores desafios do nosso tempo. A palavra produtividade está em alta no mercado de trabalho e até mesmo na vida pessoal. E ainda que ela traga retornos positivos, é preciso estar atento para que não se torne patológica, já que pode levar à Síndrome de Burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional.
O Brasil ocupa o segundo lugar mundial em diagnósticos de Burnout, com cerca de 30% dos trabalhadores afetados, de acordo com um estudo da International Stress Management Association (Isma).
A psiquiatra Géssica Ruella explica que a Síndrome de Burnout é um distúrbio que apresenta sintomas de exaustão, estresse e esgotamento físico. Na maioria dos casos, ocorre quando há uma cobrança excessiva de produtividade no trabalho. “O problema é que essa cobrança, muitas vezes, é internalizada e acabamos nos impondo esse fardo constantemente. É aí que o trabalho acaba indo para casa, para a cama e para os momentos de descanso”, explica a médica.
Como a produtividade no trabalho costuma ser associada a fatores positivos, muitas vezes é difícil identificar quando ela passa dos limites, tornando-se patológica. O principal sinal é quando a vida fora do trabalho é prejudicada.
“É importante lembrar que a nossa vida não se resume apenas ao trabalho. Temos outras áreas da vida que também precisam de atenção: tempo com a família, espiritualidade, lazer, atividades pessoais que nem sempre serão de lazer, mas que precisam ser executadas”, afirma Géssica Ruella.
O tempo dedicado ao trabalho está interferindo nas outras áreas da sua vida? Isso pode significar que, apesar de estar sendo produtivo profissionalmente, você não está sendo produtivo nas outras áreas da sua vida. “Quando você não está conseguindo desfrutar das outras áreas da sua vida, não tem mais tempo com a família, tempo para um lazer, para uma atividade física e para cuidar da sua saúde, isso começa a se tornar patológico”, alerta a doutora Géssica.
O aumento no número de trabalhadores autônomos no Brasil, que chegou a 25 milhões de pessoas em 2022, pode ser um indicativo do porquê de tantas pessoas se dedicarem a jornadas exaustivas de trabalho. Para se destacar em distintas áreas de atuação, muitos desses trabalhadores encaram jornadas que extrapolam as oito horas diárias.
Ainda que a dedicação ao trabalho por horas intermináveis possa ser lida como um sinal de sucesso, ela pode significar, na verdade, o oposto disso.
“Um profissional de sucesso tem tempo para suas atividades de lazer, ele tem tempo para sua família, ele tem tempo para fazer exercícios físicos e cuidar da saúde. Então, como é que a gente consegue dosar essas horas de trabalho e as demais atividades cotidianas? Impondo limites”, afirma a psiquiatra.
De acordo com Géssica, mesmo sendo autônomo ou trabalhando em home office, é preciso ter pré-definida uma jornada e delimitar horários para que o cotidiano tenha espaço para outras atividades.
Trabalhar sem descanso ou lazer também é contraprodutivo. A área do cérebro responsável pela criatividade só é ativada nos momentos de ócio: é por isso que o ócio é tão importante para a produtividade. É quase que impossível que uma ideia brilhante relacionada ao trabalho apareça no momento em que você estamos trabalhando.
“Geralmente, boas ideias e resoluções de problemas vão surgir no horário em que a sua mente está descansando. As grandes inspirações também vêm num momento de ócio, porque o cérebro precisa desse momento de descanso para fazer novas conexões, para realizar as sinapses... Então, o ócio é fundamental para a imaginação e para o funcionamento adequado e saudável do cérebro”, explica Géssica Ruella.
Manter atividades de lazer e ócio no cotidiano pode ser um grande desafio para quem está focado no trabalho. “A gente sempre tende a achar que não temos tempo. Ou que, se tirarmos um tempo para essas atividades, estaremos perdendo tempo. Precisamos mudar essa forma de pensar e nos conscientizar que quando reservamos um tempo para você, para uma atividade de lazer, para uma atividade com amigos, com a família, estamos na verdade ganhando tempo, aumentando a sua produtividade, ganhando tempo de vida de forma saudável”.
Por isso é tão importante começar a abrir espaço e tratar esses momentos como um compromisso. Veja as dicas:
“Precisamos fazer esse esforço diário para implementar isso na rotina. Não é algo fácil, não acontece de maneira automática. Tem que ser um exercício diário para criar seu hábito, mas é fundamental”, aconselha a médica.
Géssica também explica que muitos estudos já apontam que pacientes com quadros de Burnout associados ao ambiente de trabalho, quando se desligam do emprego e são admitidos em uma nova empresa acabam repetindo o quadro de Burnout. Isso ocorre porque, muitas vezes, a cobrança excessiva relacionada ao trabalho também se acentua em profissionais com perfil de autocobrança intensa.
“É importante a gente também trabalhar o nosso comportamento, nesse caso a psicoterapia é muito bem-vinda para que a gente mude a nossa forma de se relacionar com o trabalho e aprenda a impor esses limites para que isso se torne uma relação saudável”, orienta a médica.
Por isso, em caso de cansaço em excesso, desânimo e outros sinais de exaustão, procure ajuda médica.